domingo, 10 de julho de 2011

Um pouco sobre o rock and roll

Por Zeca do Trombone (MS)*

O rock and roll (rock & roll, rock'n'roll, R&R) se originou e se desenvolveu nos Estados Unidos no final da década de 1940 e início da de 1950. É uma combinação de blues, country music (música sertaneja), jazz e música gospel. Embora se escutem batidas do R&R nos discos da música caipira dos anos 30 e nos de blues desde os 20, o nome só surgiu na década de 1950. Uma forma inicial foi o “rockabilly”, que misturava música caipira e jazz com influências da música folclórica e gospel.
No R&R do final da década de 1940 e início da de 1950, ou o piano ou o saxofone era o instrumento de solo, mas foram substituídos ou suplementados pelo violão e pela guitarra dos meados ao final da década de 1950. A levada é essencialmente um ritmo de blues boogie woogie com uma batida no tempo fraco acentuada, quase sempre dada pela caixa. O R&R clássico é geralmente tocado com uma ou duas guitarras (uma de solo, outra de base), um baixo acústico ou (depois dos meados da década de 1950) um baixo elétrico e uma bateria.
O R&R começou a alcançar popularidade nos anos 60 e se espalhou pelo mundo todo, causando grande impacto social. Diz Bobby Gillespie: “Quando Chuck Berry cantou ‘Hail, hail, rock and roll, deliver me from the days of old’ (Êi, êi, rock and roll, me tire dos dias antigos), foi isso exatamente o que a música estava fazendo. Chuck Berry deu início à fuga da prisão global que é o rock’n’roll”.
Muito além de simplesmente uma forma musical, o R&R visto nos filmes e na televisão influenciou estilos de vida, a moda, atitudes e a língua. Ele produziu várias subcategorias, em geral sem a batida acentuada no tempo fraco do compasso quaternário ou binário característica do início, que são agora mais comumente chamadas simplesmente de “música de rock” ou “rock”.

Origens

Quanto às origens do R&R, o consenso geral é de que ele surgiu no Sul dos Estados Unidos por meio da fusão de diferentes tradições musicais que se desenvolveram a partir dos escravos africanos e dos imigrantes europeus. A migração de escravos libertos e de seus descendentes para os centros urbanos como Memphis e para o Norte - Nova York, Detroit, Chicago, Cleveland e Buffalo – aproximou os bairros dos negros aos dos brancos. Eles passaram a ouvir a música uns dos outros e a competir. As emissoras de rádio, que tocavam músicas de negros e brancos, o desenvolvimento e a disseminação do disco e os estilos musicais como o jazz e o swing, tocados por músicos das duas raças, ajudaram no processo de “colisão cultural”.
As raízes imediatas do R&R jazem na chamada “música racial” e na música caipira (depois chamadas de rhythm and blues e country and western) dos anos 40 e 50. Foram influências particularmente significativas o jazz, o blues, o boogie woogie, o country, o folk e a música gospel. Há divergências sobre quais desses estilos foram os mais importantes e o grau em que a nova música não tenha passado de outro nome para o rhythm and blues africano entrar no mercado branco ou de um híbrido de formas negras e brancas.
Nos anos 30, o jazz, e particularmente o swing, tanto o tocado por bandas de baile urbanas como o swing country com influência do blues, foi a primeira música a apresentar sons afro-americanos às platéias brancas. Os anos 40 viram o crescente uso dos sopros, incluindo saxofones, letras gritadas e batidas de boogie woogie na música baseada no jazz. Durante a II Guerra Mundial e imediatamente depois, por causa da falta de combustível, platéias menores e menos músicos, as grandes bandas de jazz escassearam e surgiram grupos menores, usando guitarra, baixo e bateria. No mesmo período, particularmente no litoral Oeste e no Centro-Oeste, o aparecimento do “jump blues” (um blues com andamento acelerado, tocado por pequenos grupos e com instrumentos de sopro), com seus refrões de guitarra, batidas fortes e canto gritado, prenunciou o que estava por vir. No documentário “Hail! Hail! Rock’n’Roll”, Bruce Springsteen dá uma explicação convincente de como Chuck Berry desenvolveu seu tipo de rock, transpondo a linha de solo de duas estrofes do piano do jump blues diretamente para a guitarra elétrica, criando o que é instantaneamente reconhecido como guitarra de rock. Da mesma forma, o country boogie woogie e o blues elétrico de Chicago forneceram muitos dos elementos que passariam a ser a característica do rock and roll.

Progresso tecnológico
O rock e roll chegou num momento de considerável mudança tecnológica, pouco depois do desenvolvimento da guitarra elétrica, do amplificador e do microfone e do disco de 45 rotações por minuto. Houve também mudanças na indústria fonográfica. Selos independentes como Atlantic, Sun e Chess conquistaram seu público específico e conseguiram que maior número de emissoras de rádio tocassem sua música. Foi a percepção de que os adolescentes brancos relativamente afluentes estavam ouvindo sua música que levou ao desenvolvimento do que ia ser definido como rock and roll como um gênero distinto.
A frase “rocking and rolling” (balançando e rolando) descrevia originalmente o movimento de um navio no mar, mas foi usada no início do século XX para descrever o fervor das funções religiosas das igrejas negras e como analogia sexual. Várias gravações de gospel, blues e swing usaram a frase antes de ela passar a ser usada com maior freqüência – mas ainda intermitentemente – em meados dos anos 40 em gravações e artigos de jornal se referindo ao que se tornou conhecido como música “rhythm and blues” destinada ao público negro. Em 1951, o DJ de Cleveland, Ohio, Alan Freed, começou a tocar esse estilo de músico e a chamá-lo de “rock and roll”.
Pelo fato de o desenvolvimento do rock and roll ter sido um processo evolucionário, não há um disco que possa ser identificado como o primeiro do novo estilo. Um dos que reivindica a glória é o “Rocket 88”, de Jackie Brenston e seus Delta Cats (pseudônimo de Ike Turner e de sua banda The Kings of Rhythm), gravado por Sam Phillips para o selo Sun Records em março de 1951. Em termos de amplo impacto cultural através da sociedade dos Estados Unidos e fora do país, o “Rock Around the Clock”, de Bill Haley, gravado em abril de 1954, um sucesso comercial só no ano seguinte, é reconhecido como um marco importante, mas foi precedido por muitas gravações de décadas anteriores em que elementos de rock and roll podem ser facilmente discernidos.

Rockabilly

"Rockabilly" normalmente, mas não exclusivamente, se refere ao tipo de rock and roll que era tocado e gravado em meados dos anos 50 por cantores brancos como Elvis Presley, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis que se fixava mais nas raízes “country”. Muitos dos outros cantores populares de rock and roll da época, como Fats Domino e Little Richard, saíram da tradição negra do rhythm and blues, tornando a música atraente para as platéias brancas e não são classificados como “rockabilly”.
Em julho de 1954. Elvis Presley gravou o sucesso regional “That’s All Right (Mama)” no estúdio da Sun de Sam Phillips, em Memphis. Três meses antes, em 12 de abril de 1954, Bill Haley & His Comets gravaram “Rock Around the Clock”. Embora esta música tivesse sido um sucesso pequeno quando foi lançada, quando usada na sequência de abertura do filme “Blackboard Jungle”, um ano depois, ela realmente pôs a coqueluche do rock and roll em movimento. A música se tornou um dos maiores sucessos da história e legiões de fãs adolescentes acorriam para assistir Haley and the Comets, provocando tumulto em algumas cidades. “Rock Around the Clock” foi o impulso fatal tanto para o grupo como para o rock and roll. Se tudo o que veio antes preparou o caminho, “Rock Around the Clock” lançou a música para o público global.
Em 1956, o movimento rockabilly foi ajudado pelo sucesso de músicas como “Folsom Prison Blues”, de Johnny Cash,
“Blue Suede Shoes”, de Perkins, e “Heartbreak Hotel”, de Presley. Durante alguns anos, ele se tornou a forma de rock and roll de maior sucesso comercial. Posteriormente, as apresentações do estilo rockabilly, particularmente de compositores cantores como Buddy Holly, seriam uma influência importante nas do grupo British Invasion e particularmente na forma de compor dos The Beatles e, através destes, na própria natureza da música rock and roll.

Doo wop

Doo wop foi uma das mais importantes formas do rock and roll da década de 1950, com ênfase nas harmonias multivocais e letras sem sentido do “backing vocal” (do que o gênero ganhou o nome), tudo normalmente acompanhado com instrumentação leve. Suas origens eram os grupos vocais afro-americanos das décadas de 1930 e 1940, como Ink Spots e The Mills Brothers, que tiveram suecesso comercial considerável. Eles foram secundados pelos shows de R&B dos anos 40 como dos The Orioles, The Ravens e The Clovers, que injetaram um forte elemento do gospel tradicional e, cada vez mais, a energia do jump blues. Por volta de 1954, à medida em que o rock and roll começava a aparecer, numerosos espetáculos semelhantes começaram a migrar do nicho do R&B para o sucesso global, muitas vezes com a adição de metaleira espalhafatosa e saxofone. The Crows, The Penguins, The El Dorados e The Turbans, todos emplacaram importantes sucessos.
Apesar da explosão subseqüente das gravações das músicas doo wop no final dos anos 50, muitas não conseguiram prosperar e foram um sucesso passageiro. As exceções incluíram The Platters, com músicas como “The Great Pretender” (1955), e The Coasters, com músicas divertidas como “Yakety Yak” (1958), que registraram o maior sucesso para o R&R na época. Já no final da década havia crescentes números de cantores brancos, particularmente ítalo-americanos, assumindo o doo wop, criando grupos como The Mystics and Dion e The Belmonts, só de brancos, e grupos racialmente integrados como The Dell Vikings e The impalas. Doo wop viria a ser uma influência importante na música vocal do surf, no soul e na batida de Mersey, incluindo The Beatles.

Efeitos sociais

Muito mais do que um simples gênero musical, o rock and roll influenciou estilos de vida, a moda, atitudes e a língua. Além disso, o rock and roll pode ter ajudado a causa do movimento dos direitos civis porque os adolescentes tanto negros como brancos gostavam da música. Fez surgirem também muitos outros estilos, como o rock psicodélico, o rock progressivo, o rock glamoroso, o rock alternativo, o rock punk e o heavy metal.
Muitas das primeiras músicas do rock and roll tratavam de temas como carros, escola, namoro e roupas. Elas descreviam fatos e conflitos com que os ouvintes podiam se relacionar até um certo ponto por sua própria experiência de vida. Assuntos que eram considerados proibidos, como sexo, começaram a ser introduzidos na música rock and roll. Ela procurava romper barreiras e expressar as verdadeiras emoções que as pessoas estavam sentindo mas sobre as quais não falavam. Começou a acontecer um despertar da cultura dos jovens norte-americanos.

Estilos de dança

Desde o começo no início dos anos 50 até os 60, a música rock and roll produziu novos estilos de danças. Os adolescentes achavam o ritmo irregular da acentuação do tempo fraco do compasso bom para reacender a dança do jitterbug da era das grandes orquestras. Fizeram furor as danças em ginásios de esporte e nas festinhas em casa e os jovens assistiam o programa American Bandstand, de Dick Clark, para se atualizarem sobre o último estilo de dança e a nova moda de roupas. A partir dos meados dos anos 60, à medida em que o “rock and roll” dava lugar gradativamente ao “rock”, surgiram muitos estilos de dança, começando com o twist até chegar ao funk, disco, house e techno.
(Fonte: Wikepedia)
*José Ramos de Almeida, músico, jornalista, advogado e tradutor juramentado do Ceará

terça-feira, 21 de junho de 2011

Emotional hypotrophy

By Carla Marzagão*
We are emotional human beings, regulated by all kinds of feelings which may vary from heavenly peace to the vilest cruelty. These feelings, be them pure or vile, are inside each one of us. However, for convenience purpose, in order for us to stay in a group, we make rules of emotional constraint for shaping the improper individual behavior into a proper collective one.
Thus, we have, at the beginning of human groupings, man already establishing power and domination relations among themselves, creating social divisions from guiding criteria and concepts like wealth, status, religion, color and so forth. This way culture and traditions are born.
Over them take hold the pre-established conformative concepts and power forms. From the collective emotional constraint all individual crises, conflicts, inadequacies and frustrations come up. If, in one hand, we are essentially emotional, on the other we build an individual rationality regulated by a major reason – the group’s reason.
The same conceptual diversity which makes us to have our own belief, our own truth and our own justice, and to become greater as human beings, when absorbed by social reason, it makes us small and servants of everything we created.
As if turning over themselves, collective emotions strengthen domination forms of one group over the other. The original guiding concepts become intense social movements – traditionalist or fundamentalist, emotionally exacerbated.
The conflicts come up, rise up and end up with the vanishing of one or other group. This cycle may determine as much the beginning and the fading of one civilization’s intrinsical social groups as the beginning and the death of an extrinsical social group, considering, as such, civilization itself.
It is implied, then, a question specifically inherent to human psiqué: emotional hypotrophy.
If we consider our own emotionality, in analogy to the evolutionist scale, it would be, keeping the due merits, like a Neanderthal. However, this is not about reformulating a control paradigm, but about searching an effective way of human emotional development. This is the crucial point, the imperative focus.
*Attorney at law, teacher, writer, songwriter – http://verocomobrisa.blogspot.com
(Versão do português por José Ramos de Almeida

terça-feira, 31 de maio de 2011

Dizzy Gillespie, Arturo Sandoval,"Night in Tunisia"

DUETO





It's a master class in collaboration as violinist Robert Gupta and cellist Joshua Roman perform Halvorsen's "Passacaglia" for violin and viola. Roman takes the viola part on his Stradivarius cello. It's powerful to watch the two musicians connect moment to moment (and recover from a mid-performance hiccup). The two are both TED Fellows, and their deep connection powers this sparkling duet.
About Robert Gupta

Violinist Robert Gupta joined the LA Philharmonic iat the age of 19 -- and maintains a passionate parallel interest in neurobiology and mental health issues. He's a TED Senior Fellow.

About Joshua Roman
Joshua Roman, a TED Fellow, is an independent-minded cellist.

domingo, 29 de maio de 2011


Os Mitos de Obama e Osama

Por Larbi Sadiki*

Obama e Osama, dois nomes que daqui para frente estarão interligados.
O caçador, Obama, é o líder da nação mais poderosa e temida da terra. Osama, a caça, foi o líder de um estado sem fronteiras – um ator sem país – e de provavelmente a associação religiosa e política mais temida do mundo moderno desde o surgimento dos assassinos do grupo ismaelino Hashashin, entre os séculos XI e XIII.   
Obama e Osama podem rimar, mas não é essa sua correlação.

A síndrome de Pigmaleão

Um Pigmaleão mora em cada um deles. Eles são, até certo ponto, escultores.   Por sua vez, esses escultores, Obama e Osama, são exemplos de como homens extraordinários – quando possuídos pelo poder de idéias, ideais e sonhos, independentemente da causa – se comportam ao esculpir suas Galatéias – suas estátuas, bonecos ou fantoches.  Cada um está apaixonado por uma visão estatuística, um grupo de ideais ou sonhos aos quais eles tentam dar vida.  De outra forma, como se pode explicar a razão pela qual um homem que poderia ter ninfas, Bantleys, iates e tudo o que o dinheiro pode comprar opta pelas recompensas “ilusórias” – para parafrasear Marx – de outra vida num paraíso.
Osama poderia ter optado pelo estilo de vida de Al-Walid bin Talal. E aí que ele se torna um quebra-cabeça. Tem que ser o poder da fé.
Não de forma diferente da compleição e alteridade, Obama ofusca. Um cidadão norte-americano hifenizado por excelência surge para ocupar a Casa Branca. Nem sua cor nem suas raízes paternas nem possivelmente a identidade islâmica suprimida o impediram de dominar a arte da escultura política de si indivíduo e ser público.

Obama e Osama são ícones

Eles são, contudo, icónicos por razões diferentes. Ambos, inevitavelmente, são construídos numa variedade de discursos.  O que é construído é também descontruído segundo o preconceito de cada um. Na verdade, os dois pertencem a dois mundos e duas visões mundiais diametralmente opostas. Mas os dois são produtos sociais e seu status icónico conforma um espectro de sentimentos humanos que vão do amor ao ódio, da admiração à suspeita.
Recentemente, Obama teve que defender sua “americanidade” dos incrédulos e, muito recentemente, defender o seu nascimento em resposta a Donald Trump.
Quando a “Guerra Santa” foi travada na luta de Reagan por prepostos contra os ex-soviéticos nos campos de morte do Afeganistão, Osama foi orgulhosamente abraçado como um herói saudita. Depois do dia 11 de setembro, ele foi deserdado e sua linhagem iemenita marcou um novo discurso com vistas a reinventar, ou reescrever, a sua identidade. 
Os dois buscaram dar vida a suas respectivas Galatéias. Para Obama, seus princípios fundamentais são uma mistura de esquerda e direita, centrismo e progressismo, embrulhados em liberalismo. 
A Galatéia de Osama é uma escultura cujo marfim é uma escatologia e uma exegese, ambas amalgamadas por uma interpretação de Salafi-Wahhabi do Islã.

Arqueologia do poder

Sejam Pigmaleão ou Narciso, Obama e Osama compartilham uma visão realística de como o poder é exercido. Como resultado, o estado de Obama e a base (literalmente “Qaeda”) de Osama – sem estado - despudoradamente praticam a violência. Os dois estão, assim, apaixonados por uma Galatéia que está presa numa arqueologia ininterrompível de morte e de guerra.
Independentemente de vitimologia ou culpa, os dois são vítimas de ideais e de idéias pelos quais estão apaixonados e na busca deles – a transcendência divina ou a divinização do modernismo e capitalismo – eles constroem mitos, guardas, armamentos e linguagens à altura. Esses são os ornamentos do poder com os quais eles enfeitam suas Galatéias.
Na verdade, Osama é culpado de assassinato em massa – as três mil vidas assassinadas horrendamente - a sua leitura errônea do Islã confunde xiitas e sunitas.
Aqueles muçulmanos que comemoraram os atos de assassinato em massa de bin Laden são culpados por associação. Os doutores do Islã deveriam ter declarado nula a época da guerra entre o Islã e a morada do não-Islã e sem fundamento no Corão, ou em muitas das exegeses das diversas escolas do pensamento islâmico.
A Galatéia de Osama foi esculpida, convenientemente, por amor a um ideal de “defesa” do “Umma”, a comunidade islâmica global. Para isso, ele esculpiu não um objeto de amor, mas, talvez, uma contra-barbárie que enfrentasse a barbárie a qual ele acreditava os capitalistas, os secularistas e seus clientes terem implantado em sua “Umma” - como se ele fosse o “comandante dos fiéis”. 
Obama, comandante-em-chefe ex-ofício, com outro tipo de fé, talvez não seja tão culpado como seu predecessor pelas grotescas violações dos direitos humanos no Iraque e no Afeganistão, mas esculpiu sua própria barbaridade por conjurar mitos (ao país, soberania, compatriotas, Deus, liberalismo, democracia) – uma marca de “amor” – em nome da civilidade.
Países tiveram que ser invadidos (sob Bush) e mantidos por Obama, um sistema de encarceramento teve que ser inventado (Baía de Guantânamo), e ainda persistir sob Obama, uma guerra sem sentido contra o “terror”, protagonizada pelos néo-enganadores, teve que ser mantida, em nome do “amor” ao país e à sua santidade.

Contemple, não comemore

Muitos muçulmanos comemoraram quando Osama infligiu sofrimento aos EUA. Isso foi errado. Muitos mais não fizeram isso. Hoje é uma reversão dos papéis: norte-americanos comemorando quando a notícia da morte de Osama foi divulgada. O assassinato de Osama foi um segredo que o governo Obama fez bem em esconder do mundo até depois do casamento de Will e Kate na Inglaterra.
Os cidadãos norte-americanos podem comemorar quanto quiserem. Mas eles têm a possibilidade também de contemplar.
As vidas norte-americanas – independentemente dos números – precisam ser colocadas em termos de importância e mérito no mesmo pé de todos os seres humanos sem levar em conta cor, etnia, nacionalidade ou crença. 
Quando seus governos eleitos apoiam ditadores – Mubarak, Ben Ali, Abadallah Al-Saleh, mesmo Kadafi – os armam, os protegem com legitimidade e financiamento não merecidos, eles precisam contemplar as consequências dos governos que eles democraticamente colocam na Casa Branca.
Entre essas consequências: os regimes torturadores, as mortes, os exílios, a exclusão e a guerra por preposto – em Gaza e no Líbano – a invasão do Iraque e os regimes participantes no segredo, nos voos de rendição, encarceramento – pelos quais eles são culpados diretamente ou por associação no assassinato de vidas não norte-americanas.   
Sua comemoração será mais significativa apenas se eles perceberem o mal da indiferença ou da ignorância de seus governos sucessivamente eleitos, ou se perceberem, em variados graus e em diferentes circunstâncias, os atos cometidos em seus nomes por mitos que eles estimam e amam – mas sobre os quais raramente pensam.
Comemorar a queda dos inimigos – sem autorreflexão – pode não valer tanto quanto comemorar a vitória de um jogo de futebol.

Osama nunca mais – Islã não é Osama

As revoluções árabes surgiram e triunfaram na Tunísia e no Egito, em parte enterrando a Galatéia de Osama. Até um ponto, elas demonstraram numa forma vívida que a “morada do Islã” não é sedenta de sangue, mas sedenta de liberdade.
Mas agora Osama é um corpo sem alma, um troféu, já desfilando como um símbolo de uma vitória oca. Outro corpo em meio às fatalidades incontáveis numa arrogância e num duelo sem sentido em que não há inocentes.
A morte de Osama deveria – e rezamos que assim seja – dar aos árabes e aos muçulmanos um alívio ao caos e à violência e um momento para fazer um balanço - que as jornadas de Osama contra os soviéticos os agrilhoaram a sistemas de linguagem, os encarceraram a perfis e a violência contra os quais nem eles nem os EUA e seus aliados jamais poderiam vencer. 
Em seu lugar há novas vozes e forças do Islã que estão empurrando as fronteiras da liberdade à sua conclusão mais lógica: um Islã apaixonado por novas concepções de Galatéia – de tolerância, de bom governo, tratamento humano dos camaradas cidadãos, governo de transparência, concorrência justa e livre, políticas respeitosas ao gênero e fatiamento justo do bolo econômico. Para mostrar que os muçulmanos estão apaixonados pelo que há de belo no Islã.
Em seu lugar surgem Essam El-Iryan, Abd Elmounim Abou El-Futuh e Mohammed Mursi, entre outros, sugerindo novas possibilidades de união do Islã com a visão da política desde uma perspectiva muçulmana.

Não um fim, mas um novo começo

Por agora, um capítulo foi lido no livro das relações árabe-norte-americanas. Neste capítulo, Obama matou Osama. Para Osama, está escrito no santo Corão: “Dize-lhes: o Anjo da Morte, encarregado de vós, levará vossas almas, então a vosso Senhor sereis retornados”. Lá aguarda seu julgamento.
Porque Obama matou Osama – legalmente ou não essa não é a questão. A questão é que este momento se transformará num momento significativo só se os fantasmas do ódio, da arrogância e da violência forem enterrados com Osama – e a incansável caça às bruxas do terrorista muçulmano ou dos Osamas reencarnados for refletida para o bem da reconciliação permanente e da cura coletiva. Que uma Galatéia coletiva seja esculpida por novos futuros, nova compreensão e novas possibilidades...


*Palestrante catedrático de Política do Oriente Médio da Universidade de Exeter e autor de Democratização Árabe: Eleições sem Democracia (Oxford University Press, 2009) e A Busca da Democracia Árabe: Discursos e Contra-Discursos (Columbia University Press, 2004), já no prelo Hamas e o Processo Político (2011)

(Traduzido e adaptado do inglês por Carla Marzagão e José Ramos de Almeida)

(Artigo em inglês publicado no site noticioso Al-Jazeera no link: http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/05/201152121358887979.html)

Viciado em desde comida a drogas e pornografia na Internet



Tradução de José Ramos de Almeida
15 de abril de 2011 
O povo dos Estados Unidos está vivendo um momento de dependência doentia em alguma coisa. As manchetes anunciam todos os dias novas descobertas da neurociência sobre viciados em pornografia, em Internet, em comida e na já velha, comum e fora de moda droga. Como noticiou o repórter da Time Michael Scherer na semana passada, 42 senadores apelaram ao Procurador Geral da União, Eric Holder, para ele ajuizar mais processos criminais contra obscenidade e pornografia para combater a dependência doentia no sexo. Até apareceu uma nova revista online sobre isso chamada “The Fix” (a dose) (e, verdade seja dita, escrevo para ela).  

Mas o que as recentes pesquisas de neurociência realmente nos dizem sobre o vício, a dependência? O que é isso afinal?

Um artigo na Website a que se referiram os senadores em sua carta a Holder explica a dependência em sexo: Cocaína, opiáceos, álcool e outras drogas subvertem, ou sequestram, os sistemas de prazer (do cérebro) e fazem o cérebro pensar que a curtição da droga é necessária para sobreviver. As provas agora são fortes no sentido de que as gratificações naturais proporcionadas por comida e sexo afetam os sistemas físicos da mesma forma que as drogas, daí o atual interesse na “dependência natural”.

A dependência doentia, seja de cocaína, comida ou sexo, ocorre quando cheirar, comer ou fazer amor deixam de contribuir para um estado de homeostasia (processo de regulação pelo qual um organismo consegue a constância do seu equilíbrio, homeostase) e, em vez disso, causam consequências adversas.

Mas isso é realmente uma forma bizarra de raciocínio circular porque confunde o propósito original dos caminhos de prazer do cérebro. Pensando bem, essas regiões provavelmente não evoluíram especificamente para nos possibilitar a curtição de cocaína ou heroína – isso seria sabotagem evolucionária. Mas elas certamente evoluíram para nos fazer ir atrás de comida e sexo sem parar, para garantir nossa sobrevivência.

Então, essas regiões do cérebro são programadas para tornar comida e sexo agradáveis. A sugestão de que as drogas “sequestram” esses sistemas de recompensa para produzir a dependência dá a entender que em circunstâncias normais – na busca de necessidades “saudáveis” como comer e sexo – esses sistemas não causariam dependência. Exceto, claro, que o mesmo raciocínio, do avesso, é usado para argumentar que de fato comida e sexo são dependências – porque ativam as regiões do cérebro que geram prazer a partir das drogas.
 
Tudo o que se pode mesmo dizer com base nesses dados é que comida, sexo, drogas – e tudo o mais que é gostoso – ativam regiões do cérebro e causam prazer e que as pessoas gostam disso e buscam prazer. No entanto, isso faz pouco para explicar por que a dita atividade cerebral pode, às vezes, causar dependência, mas normalmente não o faz. A vasta maioria das pessoas não são viciadas em comida ou drogas – e não está clara a diferença em relação à minoria que são.
 
Então, prazer por si só não é dependência – e não apenas ansiar e ter prazer são suficientes para definir dependência. A definição mais aceita descreve dependência doentia como um comportamento compulsivo relacionado a uma substância ou atividade que as pessoas continuam a consumir e fazer apesar das consequências negativas. Essa é a essência da definição usada pelo manual de diagnóstico da psiquiatria.

É um fenômeno complexo que vai além da mera ativação dos caminhos do prazer. Infelizmente, a maior parte das pesquisas sobre o imaginário de animais e do cérebro nos conta muito pouco sobre isso. Na semana passada, por exemplo, noticiei uma pesquisa sobre “vício da comida”: os pesquisadores descobriram que quando se deu “milk-shake” a mulheres voluntárias, aquelas que tinham mais sintomas de vício alimentar apresentaram maior atividade nas regiões cerebrais relacionadas a prazer e desejo e atividade reduzida em áreas vinculadas a autocontrole em comparação com aquelas que não tinham nenhum sintoma ou tinham poucos sintomas de vício alimentar.

Isso é interessante, mas, de novo, realmente mostra que voluntárias sintomáticas, de forma previsível, relataram ter tido mais prazer e desejo e menos autocontrole.

E é importante notar que nenhuma das mulheres da pesquisa realmente tinha vício alimentar: algumas tinham sintomas, mas nenhuma tinha desordens alimentares plenas. As diferenças cerebrais mostradas na pesquisa, portanto, foram vistas em pessoas perfeitamente normais – muitas das quais, sugere pesquisa anterior, nunca serão viciadas em comida.
 
Nenhuma pesquisa jamais isolou uma simples modificação cerebral que seja sempre vista em viciados e nunca em não viciados. E embora algumas pesquisas tenham encontrado mudanças que podem ajudar a prever as chances de recaída de um viciado, elas não são sempre precisas.

Esse fracasso em definir ou entender a linha borrada entre o normal e o patológico leva a todos os tipos de concepções errôneas sobre vício: por exemplo, pensar que a simples exposição a uma substância ou experiência seja suficiente para gerar o vício.

A maioria de nós aprecia o “milk-shake” ocasional, mas virtualmente nenhum de nós roubaria um banco se o preço dele se tornasse proibitivo. Da mesma forma, mais de 97% das pessoas que tomam analgésicos opióides como Oxycontin, por recomendação médica, e não têm um histórico anterior de vício, não se tornam dependentes, mostram as pesquisas.

E como Virginia Heffernan destacou no New York Times, os universitários de hoje que se definem como “viciados em Internet” não agem de forma muito diferente do que os antigos, os quais se sabia que ocasionalmente deixavam de estudar e ficavam acordados até tarde por causa de um “hobby” ou algum interesse particular.

A pesquisa da dependência está continuamente preenchendo lacunas do quebra-cabeça do comportamento viciante. Mas usar as provas existentes para afirmar que sexo ou comida gera impulsos por meio do “sequestro” de caminhos de prazer do cérebro não conta a história inteira.

Precisamos compreender muito mais sobre como controlamos e escolhemos nosso comportamento de forma ordinária antes de podermos verdadeiramente saber o que leva nossas decisões a se azedarem na questão do vício.

Se não compreendemos como comida e sexo normalmente afetam nossos cérebros e nossas escolhas, como podemos entender o que provoca a dependência doentia de qualquer substância ou experiência? 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Evolução da Língua - Babel ou Balbucio?



Todas as línguas têm suas raízes em alguma parte do mundo. Mas elas não são tão parecidas como se pensava.

De onde vêm as línguas? Esse é uma pergunta tão antiga quanto a capacidade de os seres humanos a formular. A primeira é evolucionária: quando e onde a ironia humana foi ouvida pela primeira vez. A segunda é ontológica: como um ser humano individual adquire o poder de falar e compreender. Na segunda quinzena de abril de 2011 publicaram-se obras enfocando esses dois enigmas. 
Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, vem estudando o assunto evolucionário, tentando determinar o local de nascimento da primeira língua. Michael Dunn, do Instituto de Psicolinguística Max Planck, na Holanda, vem examinando a ontologia. Eles publicaram seus resultados em dois rivais do jornalismo científico. O trabalho do Dr. Atkinson aparece no “Science” e o do Dr. Dunn no “Nature”. 

O lugar óbvio para procurar a origem evolucionária da língua é o berço da humanidade, África. E, para encurtar uma  longa história, é à África que Dr. Atkinson traça tudo e, ao fazê-lo, descarta qualquer sugestão ainda existente de que a língua se originou mais de uma vez.
Uma das linhas de evidência que mostra as origens africanas da humanidade é que, quanto mais longe desse continente, menos diversificadas, pelo menos geneticamente, são as pessoas. Descendendo de pequenos grupos de migrantes relativamente recentes, elas têm sangue menos misturado do que seus antecessores africanos.
Dr. Atkinson se perguntou se o mesmo poderia ser verdade no que se refere às línguas. Para descobrir isso, ele analisou, não genes, mas fonemas, os menores sons que diferenciam o significado (como o “th” em “thin”; substitua-o por “f” ou “s” e o resultado é uma palavra diferente). Sabia-se já há algum tempo que quanto menos falada é uma língua menos fonemas ela tem. De modo que, à medida que grupos de pessoas se aventuraram cada mais vez mais longe de sua pátria africana, seus repertórios fonêmicos deveriam ter diminuído, da mesma forma que aconteceu com os genéticos.
1.  Para checar se foi isso que aconteceu, Dr. Atkinson pegou 504 línguas e mapeou o número de fonemas em cada uma (ajustando ao crescimento populacional recente, quando significativo) segundo a distância entre o lugar onde a língua é falada e 2.500 pontos putativos de origem, espalhados pelo mundo. A relação que surge sugere que o ponto verdadeiro de origem é na África central ou meridional (veja o quadro) e que todas as línguas modernas têm, realmente, uma raiz comum.
Isso se encaixa bem à ideia de que a capacidade de falar e de entender o som proferido é uma adaptação específica – um órgão virtual, caso queiram – que é um aplicativo fulminante da humanidade na luta pelo domínio biológico. Quando andou ereto, o Homo sapiens realmente pôde seguir em frente e multiplicar e encher a terra.

Os detalhes deste órgão virtual são o objeto do estudo do Dr. Dunn. Confusamente, no entanto, para esta linda história de imperialismo humano, seu resultado desafia a principal hipótese sobre a natureza do próprio órgão da língua.
Gramática ou pura retórica?

O originador dessa hipótese é Noam Chomsky, um linguista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Dr. Chomsky argumenta que o cérebro humano vem equipado com uma gramática universal bruta – um instinto de linguagem, na frase elegante de seu outrora colega Steven Pinker. Isso explicaria por que as crianças aprendem a falar quase sem esforço.
O problema com a ideia de um instinto de linguagem é que as línguas se diferenciam não apenas em seus vocabulários, que são aprendidos, mas em suas regras gramaticais, o tipo de coisa que se esperaria que fosse instintiva. A resposta de Dr. Chomsky é que a diversidade, como a diversidade vocabular, é superficial. Em sua opinião, a gramática é uma coleção de módulos, cada um contendo características variadas. O acionar de um módulo ativa todas essas características de um golpe. Não se pode escolher e pegar dentro de um módulo.
Por exemplo, as línguas em que os verbos precedem os objetos sempre terão cláusulas relativas depois de substantivos; uma língua não pode ter um e não o outro. Muitos exemplos similares foram recolhidos por Joseph Greenberg, um linguista sediado em Stanford, que morreu em 2001. E, embora o próprio Greenberg atribuísse suas descobertas a restrições genéricas ao pensamento humano em vez de a interruptores específicos da língua no cérebro, suas descobertas também concordam com a visão do mundo de Chomsky. Testar esse ponto de vista, no entanto, é difícil. O cérebro humano não pode manejar com facilidade as conexões necessárias. Dr. Dunn por isso deu a tarefa a um computador. E o que ele descobriu o surpreendeu.
Faça suas apostas

Descobrir quais características linguísticas seguem juntas, e possam assim ser partes dos módulos de Chomsky, significa montar uma árvore genealógica linguística confiável. Isso é complicado. Diferentemente de biólogos, os linguistas não têm fósseis para guiá-los por entre o passado (à parte de milhares de anos de registros de poucas línguas faladas por sociedades literárias). Também, as línguas podem se misturar de uma forma que as espécies não podem. O inglês, por exemplo, é famosamente uma barafunda de alemão, nórdico e francês medieval. Como resultado, os linguistas com frequência discordam sobre quais línguas pertencem a uma família particular.
Para saltar esta barreira, Dr. Dunn começou a coletar termos vocabulares básicos – palavras para partes do corpo, parentesco, verbos simples e daí por diante – de quatro grandes famílias lingústicas que todos concordam que são reais. Elas são Indo-europeu, Banto, Austronésio (do suleste da Ásia e do Pacífico) e Uto-Asteca (os vernáculos nativos das Américas). Esses quatro grupos são responsáveis por mais de um terço das cerca de 7 mil línguas faladas no mundo hoje. 
Para cada família, Dr. Dunn e sua equipe identificaram grupos de cognatos, palavras etimologicamente relacionadas que aparecem em línguas diferentes. Um grupo, por exemplo, contem as palavras “night”, “Nacht” e “nuit”. Outro inclui “milk e “Milch” mas não “lait”. O resultado é o diagrama muldimensional de Venn que registra as superposições entre as línguas.
Isso é bom para o presente, mas não é de muito uso para o passado. Para substituir os fósseis, e assim reconstruir os galhos antigos da árvore bem como as folhas dos dias atuais, Dr. Dunn usou adivinhação matematicamente informada. A matemática em questão é chamada o método Monte Carlo da cadeia de Markov (MCCM). Como o nome sugere, põe-se a girar o software equivalente a uma roda de roleta para gerar uma árvore ao acaso, daí se verifica como melhor os galhos se ajustam à folhagem moderna. Então, novo giro da roda, para torcer a primeira árvore um pouco, ao acaso. Se a nova árvore é mais adequada para as folhas, ela é tomada como ponto inicial para o próximo giro. Se não, o processo volta atrás até a melhor adequação anterior. A roda gira milhões de vezes até não haver mais nenhum efeito discernível no resultado.  
Quando Dr. Dunn colocou as línguas que ele escolheu no cassino MCCM, o resultado foram várias centenas de árvores genealógicas igualmente prováveis. Daí, ele jogou oito características gramaticais, todas relacionadas à ordem vocabular, na mistura e tornou a fazer o jogo.
Os resultados foram inesperados. Nenhuma correlação persistiu por entre todas as famílias de línguas e se encontraram só duas em mais de uma família. Pareceu, então, como se as correlações entre as características gramaticais observadas por pesquisadores anteriores fossem realmente coincidências fossilizadas passadas às gerações como parte da cultura linguística. Em outras palavras, aprendizado em vez de natureza. Se Dr. Dunn estiver certo, as ideias de Dr. Chomsky se despedaçam e surgem dúvidas sobre a própria existência de um órgão da língua. Você pode ter certeza, no entanto, que a artilharia pesada Chomskiana estará dando seus primeiros tiros neste instante mesmo em que você está lendo este artigo.
(Tradução de José R. de Almeida)  

The evolution of language  

Apr 14th 2011 | from the print edition

 

Babel or babble?

Languages all have their roots in the same part of the world. But they are not as similar to each other as was once thought

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WHERE do languages come from? That is a question as old as human beings’ ability to pose it. But it has two sorts of answer. The first is evolutionary: when and where human banter was first heard. The second is ontological: how an individual human acquires the power of speech and understanding. This week, by a neat coincidence, has seen the publication of papers addressing both of these conundrums.
Quentin Atkinson, of the University of Auckland, in New Zealand, has been looking at the evolutionary issue, trying to locate the birthplace of the first language. Michael Dunn, of the Max Planck Institute for Psycholinguistics in the Netherlands, has been examining ontology. Fittingly, they have published their results in the two greatest rivals of scientific journalism. Dr Atkinson’s paper appears in Science, Dr Dunn’s in Nature.

The obvious place to look for the evolutionary origin of language is the cradle of humanity, Africa. And, to cut a long story short, it is to Africa that Dr Atkinson does trace things. In doing so, he knocks on the head any lingering suggestion that language originated more than once.
One of the lines of evidence which show humanity’s African origins is that the farther you get from that continent, the less diverse, genetically speaking, people are. Being descended from small groups of relatively recent migrants, they are more inbred than their African forebears.
Dr Atkinson wondered whether the same might be true of languages. To find out, he looked not at genes but at phonemes. These are the smallest sounds which differentiate meaning (like the “th” in thin; replace it with “f” or “s” and the result is a different word). It has been known for a while that the less widely spoken a language is, the fewer the phonemes it has. So, as groups of people ventured ever farther from their African homeland, their phonemic repertoires should have dwindled, just as their genetic ones did.
To check whether this is the case, Dr Atkinson took 504 languages and plotted the number of phonemes in each (corrected for recent population growth, when significant) against the distance between the place where the language is spoken and 2,500 putative points of origin, scattered across the world. The relationship that emerges suggests the actual point of origin is in central or southern Africa (see chart), and that all modern languages do, indeed, have a common root.
That fits nicely with the idea that being able to speak and be spoken to is a specific adaptation—a virtual organ, if you like—that is humanity’s killer app in the struggle for biological dominance. Once it arose, Homo sapiens really could go forth and multiply and fill the Earth.
The details of this virtual organ are the subject of Dr Dunn’s paper. Confusingly, though, for this neat story of human imperialism, his result challenges the leading hypothesis about the nature of the language organ itself.
Grammar or just rhetoric?
The originator of that hypothesis is Noam Chomsky, a linguist at the Massachusetts Institute of Technology. Dr Chomsky argues that the human brain comes equipped with a hard-wired universal grammar—a language instinct, in the elegant phrase of his one-time colleague Steven Pinker. This would explain why children learn to speak almost effortlessly.
The problem with the idea of a language instinct is that languages differ not just in their vocabularies, which are learned, but in their grammatical rules, which are the sort of thing that might be expected to be instinctive. Dr Chomsky’s response is that this diversity, like the diversity of vocabulary, is superficial. In his opinion grammar is a collection of modules, each containing assorted features. Switching on a module activates all these features at a stroke. You cannot pick and choose within a module.
For instance, languages in which verbs precede objects will always have relative clauses after nouns; a language cannot have one but not the other. A lot of similar examples were collected by Joseph Greenberg, a linguist based at Stanford, who died in 2001. And, though Greenberg himself attributed his findings to general constraints on human thought rather than to language-specific switches in the brain, his findings also agree with the Chomskyan view of the world. Truly testing that view, though, is hard. The human brain cannot easily handle the connections that need to be made to do so. Dr Dunn therefore offered the task to a computer. And what he found surprised him.
Place your bets
To find out which linguistic features travel together, and might thus be parts of Chomskyan modules, means drawing up a reliable linguistic family tree. That is tricky. Unlike biologists, linguists do not have fossils to guide them through the past (apart from a few thousand years of records from the few tongues spoken by literate societies). Also, languages can crossbreed in a way that species do not. English, for example, is famously a muddle of German, Norse and medieval French. As a result, linguists often disagree about which tongues belong to a particular family.
To leap this hurdle, Dr Dunn began by collecting basic vocabulary terms—words for body parts, kinship, simple verbs and the like—for four large language families that all linguists agree are real. These are Indo-European, Bantu, Austronesian (from South-East Asia and the Pacific) and Uto-Aztecan (the native vernaculars of the Americas). These four groups account for more than a third of the 7,000 or so tongues spoken around the world today.
For each family, Dr Dunn and his team identified sets of cognates. These are etymologically related words that pop up in different languages. One set, for example, contains words like “night”, “Nacht” and “nuit”. Another includes “milk” and “Milch”, but not “lait”. The result is a multidimensional Venn diagram that records the overlaps between languages.
Which is fine for the present, but not much use for the past. To substitute for fossils, and thus reconstruct the ancient branches of the tree as well as the modern-day leaves, Dr Dunn used mathematically informed guesswork. The maths in question is called the Markov chain Monte Carlo (MCMC) method. As its name suggests, this spins the software equivalent of a roulette wheel to generate a random tree, then examines how snugly the branches of that tree fit the modern foliage. It then spins the wheel again, to tweak the first tree ever so slightly, at random. If the new tree is a better fit for the leaves, it is taken as the starting point for the next spin. If not, the process takes a step back to the previous best fit. The wheel whirrs millions of times until such random tweaking has no discernible effect on the outcome.
When Dr Dunn fed the languages he had chosen into the MCMC casino, the result was several hundred equally probable family trees. Next, he threw eight grammatical features, all related to word order, into the mix, and ran the game again.
The results were unexpected. Not one correlation persisted across all language families, and only two were found in more than one family. It looks, then, as if the correlations between grammatical features noticed by previous researchers are actually fossilised coincidences passed down the generations as part of linguistic culture. Nurture, in other words, rather than nature. If Dr Dunn is correct, that leaves Dr Chomsky’s ideas in tatters, and raises questions about the very existence of a language organ. You may be sure, though, that the Chomskyan heavy artillery will be making its first ranging shots in reply, even as you read this article. Watch this space for further developments.
(Texto extraído do jornal The Economist, em 14/04/2011) 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Está comprovado: tocar um instrumento musical protege contra a demência

Guillermo Sosa
Por Jennifer LaRue Huget

Atenção, músicos amadores! Todas aquelas horas estudando escalas no instrumento e aprendendo a ler música talvez lhes façam bem quando vocês chegarem à terceira idade.
Uma surpreendente pesquisa publicada online em 4 de abril na revista “Neuropsychology” da Associação de Psicologia dos Estados Unidos descobriu que as pessoas que se dedicam à atividade musical instrumental durante muitos anos podem desenvolver alguma proteção contra perdas cognitivas quando envelhecerem em relação aos que tenham tocado só por pouco tempo. 
Os pesquisadores submeteram 70 pessoas de 60 a 83 anos a uma variedade de testes para medir a memória visoespacial - a capacidade de dar nome aos objetos, a capacidade que o cérebro tem de se adaptar a informação nova ou a outros aspectos da cognição. Eles descobriram que aquelas que haviam se dedicado à atividade musical durante 10 anos ou mais se saíram substancialmente melhor do que os que não fizeram isso.  Não houve uma grande diferença em habilidades, mas a pontuação dos que tinham tocado durante 9 anos ou menos ficou no meio entre os com mais e menos tempo de instrumento. Isso sugere que quanto mais tempo as pessoas tocarem um instrumento mais benefícios pessoais terão.
A maioria dos músicos na pesquisa citou o piano como seu instrumento primário; os instrumentos de palheta (clarineta, saxofone, oboé, fagote) ficaram em segundo lugar. Todos eram amadores que começaram a tocar quando tinham 10 anos. A pesquisa levou em conta capacidade física e níveis educacionais, aspectos que podem contribuir para proteger contra a demência. E, interessantemente, a relação entre habilidades cognitivas e anos de atividade musical se manteve independentemente de os músicos terem continuado a tocar ou não. 
A pesquisa aponta a que as áreas em que os instrumentistas de mais tempo se saíram melhor foram as mesmas nas quais pessoas tendem a sofrer diminuição de capacidade ao envelhecer e em que pessoas com a demência de Alzheimer tendem a ter deficiências. Isso sugere que a atividade musical poderia, talvez, ser um meio de retardar perdas cognitivas causadas pela Alzheimer. Mas os autores da pesquisa são cuidadosos em destacar que seu trabalho apenas estabelece uma associação, não uma relação de causa e efeito, entre a atividade musical e a cognição. A pesquisa não especifica o que na atividade musical pode ser proteção contra a demência.
A pesquisa se insere numa grande e crescente variedade de estudos investigativos da relação entre atividades que possam desenvolver habilidades cognitivas (entre pessoas de todas as idades) e mesmo criar um tipo de reserva cognitiva no cérebro de forma a proteger contra perdas causadas por demência por conta do envelhecimento. Teoriza-se que tais atividades possam realmente alterar a forma como o cérebro funciona, mudando de forma benéfica os caminhos neurais. A atividade musical é um assunto de pesquisa particularmente promissor porque envolve uma combinação de habilidades motoras, leitura de notas musicais, audição e ação repetitiva.
Então, da próxima vez que seu filho se queixar por ter de estudar piano, diga-lhe que um dia ele vai olhar para trás e lhe agradecer.
(Washington Post)
Tradução de JRdeAlmeida

Is that right? Playing a musical instrument might help protect against dementia

By Jennifer LaRue Huget


Listen up, amateur musicians! All those hours of practicing scales and learning to read music may pay off when you reach your golden years.

A tantalizing study published online April 4 in the American Psychological Association's journal Neuropsychology found that people who engage in instrumental musical activity for many years may build some protection against cognitive losses in their later years than those with fewer, or no, years of musical activity.

Researchers had 70 people ages 60 to 83 perform a variety of tests to measure visuospatial memory, ability to name objects, the brain's ability to adapt to new information and other aspects of cognition. They found that those who had engaged in musical activity for 10 years or longer scored substantially better than those with no musical activity in their past. There wasn't a big difference in skills between those who had played the longest and those who had played for fewer years. But the scores of those who had played for nine or fewer years fell between those of the two other groups. That suggests that the longer people play instruments, the more benefits they may derive.


Most of the musicians in the study named the piano as their primary instrument; woodwinds were the second most commonly played instruments. All were amateurs who had started playing when they were 10 years old. The study adjusted for physical fitness and education levels, each of which could contribute to protection against dementia. And, interestingly, the relationship between cognitive skills and years of musical activity held up whether the musicians were currently involved in making music or not.

The study points out that the areas in which the long-time music players scored best were the same ones in which people tend to suffer declines as they age and in which people with Alzheimer's dementia tend to have deficits. That suggests that musical activity could perhaps be enlisted as a means of delaying cognitive losses due to Alzheimer's. But the authors are careful to point out that their work only establishes an association, not a cause-and-effect relationship, between musical activity and cognition. Nor does this study determine just what it is about musical activity that might protect against dementia.


The study takes its place among a large and growing body of research investigating the relationship between activities that might bolster cognitive skills (among people of all ages) and even create a kind of cognitive reserve in the brain that could protect against losses from age-related dementia. It's theorized that such activities might actually alter the way the brain works, reshaping neural pathways in beneficial ways. Musical activity is a particularly promising research subject because it involves a combination of motor skills, reading musical notation, listening and repetitive action.

So, next time your kid complains about having to practice the piano, tell him that one of these days he may look back and thank you.
By Jennifer LaRue Huget | 05:30 PM ET, 04/21/2011
(Washington Post)