quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Evolução da Língua - Babel ou Balbucio?



Todas as línguas têm suas raízes em alguma parte do mundo. Mas elas não são tão parecidas como se pensava.

De onde vêm as línguas? Esse é uma pergunta tão antiga quanto a capacidade de os seres humanos a formular. A primeira é evolucionária: quando e onde a ironia humana foi ouvida pela primeira vez. A segunda é ontológica: como um ser humano individual adquire o poder de falar e compreender. Na segunda quinzena de abril de 2011 publicaram-se obras enfocando esses dois enigmas. 
Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, vem estudando o assunto evolucionário, tentando determinar o local de nascimento da primeira língua. Michael Dunn, do Instituto de Psicolinguística Max Planck, na Holanda, vem examinando a ontologia. Eles publicaram seus resultados em dois rivais do jornalismo científico. O trabalho do Dr. Atkinson aparece no “Science” e o do Dr. Dunn no “Nature”. 

O lugar óbvio para procurar a origem evolucionária da língua é o berço da humanidade, África. E, para encurtar uma  longa história, é à África que Dr. Atkinson traça tudo e, ao fazê-lo, descarta qualquer sugestão ainda existente de que a língua se originou mais de uma vez.
Uma das linhas de evidência que mostra as origens africanas da humanidade é que, quanto mais longe desse continente, menos diversificadas, pelo menos geneticamente, são as pessoas. Descendendo de pequenos grupos de migrantes relativamente recentes, elas têm sangue menos misturado do que seus antecessores africanos.
Dr. Atkinson se perguntou se o mesmo poderia ser verdade no que se refere às línguas. Para descobrir isso, ele analisou, não genes, mas fonemas, os menores sons que diferenciam o significado (como o “th” em “thin”; substitua-o por “f” ou “s” e o resultado é uma palavra diferente). Sabia-se já há algum tempo que quanto menos falada é uma língua menos fonemas ela tem. De modo que, à medida que grupos de pessoas se aventuraram cada mais vez mais longe de sua pátria africana, seus repertórios fonêmicos deveriam ter diminuído, da mesma forma que aconteceu com os genéticos.
1.  Para checar se foi isso que aconteceu, Dr. Atkinson pegou 504 línguas e mapeou o número de fonemas em cada uma (ajustando ao crescimento populacional recente, quando significativo) segundo a distância entre o lugar onde a língua é falada e 2.500 pontos putativos de origem, espalhados pelo mundo. A relação que surge sugere que o ponto verdadeiro de origem é na África central ou meridional (veja o quadro) e que todas as línguas modernas têm, realmente, uma raiz comum.
Isso se encaixa bem à ideia de que a capacidade de falar e de entender o som proferido é uma adaptação específica – um órgão virtual, caso queiram – que é um aplicativo fulminante da humanidade na luta pelo domínio biológico. Quando andou ereto, o Homo sapiens realmente pôde seguir em frente e multiplicar e encher a terra.

Os detalhes deste órgão virtual são o objeto do estudo do Dr. Dunn. Confusamente, no entanto, para esta linda história de imperialismo humano, seu resultado desafia a principal hipótese sobre a natureza do próprio órgão da língua.
Gramática ou pura retórica?

O originador dessa hipótese é Noam Chomsky, um linguista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Dr. Chomsky argumenta que o cérebro humano vem equipado com uma gramática universal bruta – um instinto de linguagem, na frase elegante de seu outrora colega Steven Pinker. Isso explicaria por que as crianças aprendem a falar quase sem esforço.
O problema com a ideia de um instinto de linguagem é que as línguas se diferenciam não apenas em seus vocabulários, que são aprendidos, mas em suas regras gramaticais, o tipo de coisa que se esperaria que fosse instintiva. A resposta de Dr. Chomsky é que a diversidade, como a diversidade vocabular, é superficial. Em sua opinião, a gramática é uma coleção de módulos, cada um contendo características variadas. O acionar de um módulo ativa todas essas características de um golpe. Não se pode escolher e pegar dentro de um módulo.
Por exemplo, as línguas em que os verbos precedem os objetos sempre terão cláusulas relativas depois de substantivos; uma língua não pode ter um e não o outro. Muitos exemplos similares foram recolhidos por Joseph Greenberg, um linguista sediado em Stanford, que morreu em 2001. E, embora o próprio Greenberg atribuísse suas descobertas a restrições genéricas ao pensamento humano em vez de a interruptores específicos da língua no cérebro, suas descobertas também concordam com a visão do mundo de Chomsky. Testar esse ponto de vista, no entanto, é difícil. O cérebro humano não pode manejar com facilidade as conexões necessárias. Dr. Dunn por isso deu a tarefa a um computador. E o que ele descobriu o surpreendeu.
Faça suas apostas

Descobrir quais características linguísticas seguem juntas, e possam assim ser partes dos módulos de Chomsky, significa montar uma árvore genealógica linguística confiável. Isso é complicado. Diferentemente de biólogos, os linguistas não têm fósseis para guiá-los por entre o passado (à parte de milhares de anos de registros de poucas línguas faladas por sociedades literárias). Também, as línguas podem se misturar de uma forma que as espécies não podem. O inglês, por exemplo, é famosamente uma barafunda de alemão, nórdico e francês medieval. Como resultado, os linguistas com frequência discordam sobre quais línguas pertencem a uma família particular.
Para saltar esta barreira, Dr. Dunn começou a coletar termos vocabulares básicos – palavras para partes do corpo, parentesco, verbos simples e daí por diante – de quatro grandes famílias lingústicas que todos concordam que são reais. Elas são Indo-europeu, Banto, Austronésio (do suleste da Ásia e do Pacífico) e Uto-Asteca (os vernáculos nativos das Américas). Esses quatro grupos são responsáveis por mais de um terço das cerca de 7 mil línguas faladas no mundo hoje. 
Para cada família, Dr. Dunn e sua equipe identificaram grupos de cognatos, palavras etimologicamente relacionadas que aparecem em línguas diferentes. Um grupo, por exemplo, contem as palavras “night”, “Nacht” e “nuit”. Outro inclui “milk e “Milch” mas não “lait”. O resultado é o diagrama muldimensional de Venn que registra as superposições entre as línguas.
Isso é bom para o presente, mas não é de muito uso para o passado. Para substituir os fósseis, e assim reconstruir os galhos antigos da árvore bem como as folhas dos dias atuais, Dr. Dunn usou adivinhação matematicamente informada. A matemática em questão é chamada o método Monte Carlo da cadeia de Markov (MCCM). Como o nome sugere, põe-se a girar o software equivalente a uma roda de roleta para gerar uma árvore ao acaso, daí se verifica como melhor os galhos se ajustam à folhagem moderna. Então, novo giro da roda, para torcer a primeira árvore um pouco, ao acaso. Se a nova árvore é mais adequada para as folhas, ela é tomada como ponto inicial para o próximo giro. Se não, o processo volta atrás até a melhor adequação anterior. A roda gira milhões de vezes até não haver mais nenhum efeito discernível no resultado.  
Quando Dr. Dunn colocou as línguas que ele escolheu no cassino MCCM, o resultado foram várias centenas de árvores genealógicas igualmente prováveis. Daí, ele jogou oito características gramaticais, todas relacionadas à ordem vocabular, na mistura e tornou a fazer o jogo.
Os resultados foram inesperados. Nenhuma correlação persistiu por entre todas as famílias de línguas e se encontraram só duas em mais de uma família. Pareceu, então, como se as correlações entre as características gramaticais observadas por pesquisadores anteriores fossem realmente coincidências fossilizadas passadas às gerações como parte da cultura linguística. Em outras palavras, aprendizado em vez de natureza. Se Dr. Dunn estiver certo, as ideias de Dr. Chomsky se despedaçam e surgem dúvidas sobre a própria existência de um órgão da língua. Você pode ter certeza, no entanto, que a artilharia pesada Chomskiana estará dando seus primeiros tiros neste instante mesmo em que você está lendo este artigo.
(Tradução de José R. de Almeida)  

The evolution of language  

Apr 14th 2011 | from the print edition

 

Babel or babble?

Languages all have their roots in the same part of the world. But they are not as similar to each other as was once thought

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WHERE do languages come from? That is a question as old as human beings’ ability to pose it. But it has two sorts of answer. The first is evolutionary: when and where human banter was first heard. The second is ontological: how an individual human acquires the power of speech and understanding. This week, by a neat coincidence, has seen the publication of papers addressing both of these conundrums.
Quentin Atkinson, of the University of Auckland, in New Zealand, has been looking at the evolutionary issue, trying to locate the birthplace of the first language. Michael Dunn, of the Max Planck Institute for Psycholinguistics in the Netherlands, has been examining ontology. Fittingly, they have published their results in the two greatest rivals of scientific journalism. Dr Atkinson’s paper appears in Science, Dr Dunn’s in Nature.

The obvious place to look for the evolutionary origin of language is the cradle of humanity, Africa. And, to cut a long story short, it is to Africa that Dr Atkinson does trace things. In doing so, he knocks on the head any lingering suggestion that language originated more than once.
One of the lines of evidence which show humanity’s African origins is that the farther you get from that continent, the less diverse, genetically speaking, people are. Being descended from small groups of relatively recent migrants, they are more inbred than their African forebears.
Dr Atkinson wondered whether the same might be true of languages. To find out, he looked not at genes but at phonemes. These are the smallest sounds which differentiate meaning (like the “th” in thin; replace it with “f” or “s” and the result is a different word). It has been known for a while that the less widely spoken a language is, the fewer the phonemes it has. So, as groups of people ventured ever farther from their African homeland, their phonemic repertoires should have dwindled, just as their genetic ones did.
To check whether this is the case, Dr Atkinson took 504 languages and plotted the number of phonemes in each (corrected for recent population growth, when significant) against the distance between the place where the language is spoken and 2,500 putative points of origin, scattered across the world. The relationship that emerges suggests the actual point of origin is in central or southern Africa (see chart), and that all modern languages do, indeed, have a common root.
That fits nicely with the idea that being able to speak and be spoken to is a specific adaptation—a virtual organ, if you like—that is humanity’s killer app in the struggle for biological dominance. Once it arose, Homo sapiens really could go forth and multiply and fill the Earth.
The details of this virtual organ are the subject of Dr Dunn’s paper. Confusingly, though, for this neat story of human imperialism, his result challenges the leading hypothesis about the nature of the language organ itself.
Grammar or just rhetoric?
The originator of that hypothesis is Noam Chomsky, a linguist at the Massachusetts Institute of Technology. Dr Chomsky argues that the human brain comes equipped with a hard-wired universal grammar—a language instinct, in the elegant phrase of his one-time colleague Steven Pinker. This would explain why children learn to speak almost effortlessly.
The problem with the idea of a language instinct is that languages differ not just in their vocabularies, which are learned, but in their grammatical rules, which are the sort of thing that might be expected to be instinctive. Dr Chomsky’s response is that this diversity, like the diversity of vocabulary, is superficial. In his opinion grammar is a collection of modules, each containing assorted features. Switching on a module activates all these features at a stroke. You cannot pick and choose within a module.
For instance, languages in which verbs precede objects will always have relative clauses after nouns; a language cannot have one but not the other. A lot of similar examples were collected by Joseph Greenberg, a linguist based at Stanford, who died in 2001. And, though Greenberg himself attributed his findings to general constraints on human thought rather than to language-specific switches in the brain, his findings also agree with the Chomskyan view of the world. Truly testing that view, though, is hard. The human brain cannot easily handle the connections that need to be made to do so. Dr Dunn therefore offered the task to a computer. And what he found surprised him.
Place your bets
To find out which linguistic features travel together, and might thus be parts of Chomskyan modules, means drawing up a reliable linguistic family tree. That is tricky. Unlike biologists, linguists do not have fossils to guide them through the past (apart from a few thousand years of records from the few tongues spoken by literate societies). Also, languages can crossbreed in a way that species do not. English, for example, is famously a muddle of German, Norse and medieval French. As a result, linguists often disagree about which tongues belong to a particular family.
To leap this hurdle, Dr Dunn began by collecting basic vocabulary terms—words for body parts, kinship, simple verbs and the like—for four large language families that all linguists agree are real. These are Indo-European, Bantu, Austronesian (from South-East Asia and the Pacific) and Uto-Aztecan (the native vernaculars of the Americas). These four groups account for more than a third of the 7,000 or so tongues spoken around the world today.
For each family, Dr Dunn and his team identified sets of cognates. These are etymologically related words that pop up in different languages. One set, for example, contains words like “night”, “Nacht” and “nuit”. Another includes “milk” and “Milch”, but not “lait”. The result is a multidimensional Venn diagram that records the overlaps between languages.
Which is fine for the present, but not much use for the past. To substitute for fossils, and thus reconstruct the ancient branches of the tree as well as the modern-day leaves, Dr Dunn used mathematically informed guesswork. The maths in question is called the Markov chain Monte Carlo (MCMC) method. As its name suggests, this spins the software equivalent of a roulette wheel to generate a random tree, then examines how snugly the branches of that tree fit the modern foliage. It then spins the wheel again, to tweak the first tree ever so slightly, at random. If the new tree is a better fit for the leaves, it is taken as the starting point for the next spin. If not, the process takes a step back to the previous best fit. The wheel whirrs millions of times until such random tweaking has no discernible effect on the outcome.
When Dr Dunn fed the languages he had chosen into the MCMC casino, the result was several hundred equally probable family trees. Next, he threw eight grammatical features, all related to word order, into the mix, and ran the game again.
The results were unexpected. Not one correlation persisted across all language families, and only two were found in more than one family. It looks, then, as if the correlations between grammatical features noticed by previous researchers are actually fossilised coincidences passed down the generations as part of linguistic culture. Nurture, in other words, rather than nature. If Dr Dunn is correct, that leaves Dr Chomsky’s ideas in tatters, and raises questions about the very existence of a language organ. You may be sure, though, that the Chomskyan heavy artillery will be making its first ranging shots in reply, even as you read this article. Watch this space for further developments.
(Texto extraído do jornal The Economist, em 14/04/2011) 

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