domingo, 29 de maio de 2011


Os Mitos de Obama e Osama

Por Larbi Sadiki*

Obama e Osama, dois nomes que daqui para frente estarão interligados.
O caçador, Obama, é o líder da nação mais poderosa e temida da terra. Osama, a caça, foi o líder de um estado sem fronteiras – um ator sem país – e de provavelmente a associação religiosa e política mais temida do mundo moderno desde o surgimento dos assassinos do grupo ismaelino Hashashin, entre os séculos XI e XIII.   
Obama e Osama podem rimar, mas não é essa sua correlação.

A síndrome de Pigmaleão

Um Pigmaleão mora em cada um deles. Eles são, até certo ponto, escultores.   Por sua vez, esses escultores, Obama e Osama, são exemplos de como homens extraordinários – quando possuídos pelo poder de idéias, ideais e sonhos, independentemente da causa – se comportam ao esculpir suas Galatéias – suas estátuas, bonecos ou fantoches.  Cada um está apaixonado por uma visão estatuística, um grupo de ideais ou sonhos aos quais eles tentam dar vida.  De outra forma, como se pode explicar a razão pela qual um homem que poderia ter ninfas, Bantleys, iates e tudo o que o dinheiro pode comprar opta pelas recompensas “ilusórias” – para parafrasear Marx – de outra vida num paraíso.
Osama poderia ter optado pelo estilo de vida de Al-Walid bin Talal. E aí que ele se torna um quebra-cabeça. Tem que ser o poder da fé.
Não de forma diferente da compleição e alteridade, Obama ofusca. Um cidadão norte-americano hifenizado por excelência surge para ocupar a Casa Branca. Nem sua cor nem suas raízes paternas nem possivelmente a identidade islâmica suprimida o impediram de dominar a arte da escultura política de si indivíduo e ser público.

Obama e Osama são ícones

Eles são, contudo, icónicos por razões diferentes. Ambos, inevitavelmente, são construídos numa variedade de discursos.  O que é construído é também descontruído segundo o preconceito de cada um. Na verdade, os dois pertencem a dois mundos e duas visões mundiais diametralmente opostas. Mas os dois são produtos sociais e seu status icónico conforma um espectro de sentimentos humanos que vão do amor ao ódio, da admiração à suspeita.
Recentemente, Obama teve que defender sua “americanidade” dos incrédulos e, muito recentemente, defender o seu nascimento em resposta a Donald Trump.
Quando a “Guerra Santa” foi travada na luta de Reagan por prepostos contra os ex-soviéticos nos campos de morte do Afeganistão, Osama foi orgulhosamente abraçado como um herói saudita. Depois do dia 11 de setembro, ele foi deserdado e sua linhagem iemenita marcou um novo discurso com vistas a reinventar, ou reescrever, a sua identidade. 
Os dois buscaram dar vida a suas respectivas Galatéias. Para Obama, seus princípios fundamentais são uma mistura de esquerda e direita, centrismo e progressismo, embrulhados em liberalismo. 
A Galatéia de Osama é uma escultura cujo marfim é uma escatologia e uma exegese, ambas amalgamadas por uma interpretação de Salafi-Wahhabi do Islã.

Arqueologia do poder

Sejam Pigmaleão ou Narciso, Obama e Osama compartilham uma visão realística de como o poder é exercido. Como resultado, o estado de Obama e a base (literalmente “Qaeda”) de Osama – sem estado - despudoradamente praticam a violência. Os dois estão, assim, apaixonados por uma Galatéia que está presa numa arqueologia ininterrompível de morte e de guerra.
Independentemente de vitimologia ou culpa, os dois são vítimas de ideais e de idéias pelos quais estão apaixonados e na busca deles – a transcendência divina ou a divinização do modernismo e capitalismo – eles constroem mitos, guardas, armamentos e linguagens à altura. Esses são os ornamentos do poder com os quais eles enfeitam suas Galatéias.
Na verdade, Osama é culpado de assassinato em massa – as três mil vidas assassinadas horrendamente - a sua leitura errônea do Islã confunde xiitas e sunitas.
Aqueles muçulmanos que comemoraram os atos de assassinato em massa de bin Laden são culpados por associação. Os doutores do Islã deveriam ter declarado nula a época da guerra entre o Islã e a morada do não-Islã e sem fundamento no Corão, ou em muitas das exegeses das diversas escolas do pensamento islâmico.
A Galatéia de Osama foi esculpida, convenientemente, por amor a um ideal de “defesa” do “Umma”, a comunidade islâmica global. Para isso, ele esculpiu não um objeto de amor, mas, talvez, uma contra-barbárie que enfrentasse a barbárie a qual ele acreditava os capitalistas, os secularistas e seus clientes terem implantado em sua “Umma” - como se ele fosse o “comandante dos fiéis”. 
Obama, comandante-em-chefe ex-ofício, com outro tipo de fé, talvez não seja tão culpado como seu predecessor pelas grotescas violações dos direitos humanos no Iraque e no Afeganistão, mas esculpiu sua própria barbaridade por conjurar mitos (ao país, soberania, compatriotas, Deus, liberalismo, democracia) – uma marca de “amor” – em nome da civilidade.
Países tiveram que ser invadidos (sob Bush) e mantidos por Obama, um sistema de encarceramento teve que ser inventado (Baía de Guantânamo), e ainda persistir sob Obama, uma guerra sem sentido contra o “terror”, protagonizada pelos néo-enganadores, teve que ser mantida, em nome do “amor” ao país e à sua santidade.

Contemple, não comemore

Muitos muçulmanos comemoraram quando Osama infligiu sofrimento aos EUA. Isso foi errado. Muitos mais não fizeram isso. Hoje é uma reversão dos papéis: norte-americanos comemorando quando a notícia da morte de Osama foi divulgada. O assassinato de Osama foi um segredo que o governo Obama fez bem em esconder do mundo até depois do casamento de Will e Kate na Inglaterra.
Os cidadãos norte-americanos podem comemorar quanto quiserem. Mas eles têm a possibilidade também de contemplar.
As vidas norte-americanas – independentemente dos números – precisam ser colocadas em termos de importância e mérito no mesmo pé de todos os seres humanos sem levar em conta cor, etnia, nacionalidade ou crença. 
Quando seus governos eleitos apoiam ditadores – Mubarak, Ben Ali, Abadallah Al-Saleh, mesmo Kadafi – os armam, os protegem com legitimidade e financiamento não merecidos, eles precisam contemplar as consequências dos governos que eles democraticamente colocam na Casa Branca.
Entre essas consequências: os regimes torturadores, as mortes, os exílios, a exclusão e a guerra por preposto – em Gaza e no Líbano – a invasão do Iraque e os regimes participantes no segredo, nos voos de rendição, encarceramento – pelos quais eles são culpados diretamente ou por associação no assassinato de vidas não norte-americanas.   
Sua comemoração será mais significativa apenas se eles perceberem o mal da indiferença ou da ignorância de seus governos sucessivamente eleitos, ou se perceberem, em variados graus e em diferentes circunstâncias, os atos cometidos em seus nomes por mitos que eles estimam e amam – mas sobre os quais raramente pensam.
Comemorar a queda dos inimigos – sem autorreflexão – pode não valer tanto quanto comemorar a vitória de um jogo de futebol.

Osama nunca mais – Islã não é Osama

As revoluções árabes surgiram e triunfaram na Tunísia e no Egito, em parte enterrando a Galatéia de Osama. Até um ponto, elas demonstraram numa forma vívida que a “morada do Islã” não é sedenta de sangue, mas sedenta de liberdade.
Mas agora Osama é um corpo sem alma, um troféu, já desfilando como um símbolo de uma vitória oca. Outro corpo em meio às fatalidades incontáveis numa arrogância e num duelo sem sentido em que não há inocentes.
A morte de Osama deveria – e rezamos que assim seja – dar aos árabes e aos muçulmanos um alívio ao caos e à violência e um momento para fazer um balanço - que as jornadas de Osama contra os soviéticos os agrilhoaram a sistemas de linguagem, os encarceraram a perfis e a violência contra os quais nem eles nem os EUA e seus aliados jamais poderiam vencer. 
Em seu lugar há novas vozes e forças do Islã que estão empurrando as fronteiras da liberdade à sua conclusão mais lógica: um Islã apaixonado por novas concepções de Galatéia – de tolerância, de bom governo, tratamento humano dos camaradas cidadãos, governo de transparência, concorrência justa e livre, políticas respeitosas ao gênero e fatiamento justo do bolo econômico. Para mostrar que os muçulmanos estão apaixonados pelo que há de belo no Islã.
Em seu lugar surgem Essam El-Iryan, Abd Elmounim Abou El-Futuh e Mohammed Mursi, entre outros, sugerindo novas possibilidades de união do Islã com a visão da política desde uma perspectiva muçulmana.

Não um fim, mas um novo começo

Por agora, um capítulo foi lido no livro das relações árabe-norte-americanas. Neste capítulo, Obama matou Osama. Para Osama, está escrito no santo Corão: “Dize-lhes: o Anjo da Morte, encarregado de vós, levará vossas almas, então a vosso Senhor sereis retornados”. Lá aguarda seu julgamento.
Porque Obama matou Osama – legalmente ou não essa não é a questão. A questão é que este momento se transformará num momento significativo só se os fantasmas do ódio, da arrogância e da violência forem enterrados com Osama – e a incansável caça às bruxas do terrorista muçulmano ou dos Osamas reencarnados for refletida para o bem da reconciliação permanente e da cura coletiva. Que uma Galatéia coletiva seja esculpida por novos futuros, nova compreensão e novas possibilidades...


*Palestrante catedrático de Política do Oriente Médio da Universidade de Exeter e autor de Democratização Árabe: Eleições sem Democracia (Oxford University Press, 2009) e A Busca da Democracia Árabe: Discursos e Contra-Discursos (Columbia University Press, 2004), já no prelo Hamas e o Processo Político (2011)

(Traduzido e adaptado do inglês por Carla Marzagão e José Ramos de Almeida)

(Artigo em inglês publicado no site noticioso Al-Jazeera no link: http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/05/201152121358887979.html)

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