domingo, 29 de maio de 2011

Viciado em desde comida a drogas e pornografia na Internet



Tradução de José Ramos de Almeida
15 de abril de 2011 
O povo dos Estados Unidos está vivendo um momento de dependência doentia em alguma coisa. As manchetes anunciam todos os dias novas descobertas da neurociência sobre viciados em pornografia, em Internet, em comida e na já velha, comum e fora de moda droga. Como noticiou o repórter da Time Michael Scherer na semana passada, 42 senadores apelaram ao Procurador Geral da União, Eric Holder, para ele ajuizar mais processos criminais contra obscenidade e pornografia para combater a dependência doentia no sexo. Até apareceu uma nova revista online sobre isso chamada “The Fix” (a dose) (e, verdade seja dita, escrevo para ela).  

Mas o que as recentes pesquisas de neurociência realmente nos dizem sobre o vício, a dependência? O que é isso afinal?

Um artigo na Website a que se referiram os senadores em sua carta a Holder explica a dependência em sexo: Cocaína, opiáceos, álcool e outras drogas subvertem, ou sequestram, os sistemas de prazer (do cérebro) e fazem o cérebro pensar que a curtição da droga é necessária para sobreviver. As provas agora são fortes no sentido de que as gratificações naturais proporcionadas por comida e sexo afetam os sistemas físicos da mesma forma que as drogas, daí o atual interesse na “dependência natural”.

A dependência doentia, seja de cocaína, comida ou sexo, ocorre quando cheirar, comer ou fazer amor deixam de contribuir para um estado de homeostasia (processo de regulação pelo qual um organismo consegue a constância do seu equilíbrio, homeostase) e, em vez disso, causam consequências adversas.

Mas isso é realmente uma forma bizarra de raciocínio circular porque confunde o propósito original dos caminhos de prazer do cérebro. Pensando bem, essas regiões provavelmente não evoluíram especificamente para nos possibilitar a curtição de cocaína ou heroína – isso seria sabotagem evolucionária. Mas elas certamente evoluíram para nos fazer ir atrás de comida e sexo sem parar, para garantir nossa sobrevivência.

Então, essas regiões do cérebro são programadas para tornar comida e sexo agradáveis. A sugestão de que as drogas “sequestram” esses sistemas de recompensa para produzir a dependência dá a entender que em circunstâncias normais – na busca de necessidades “saudáveis” como comer e sexo – esses sistemas não causariam dependência. Exceto, claro, que o mesmo raciocínio, do avesso, é usado para argumentar que de fato comida e sexo são dependências – porque ativam as regiões do cérebro que geram prazer a partir das drogas.
 
Tudo o que se pode mesmo dizer com base nesses dados é que comida, sexo, drogas – e tudo o mais que é gostoso – ativam regiões do cérebro e causam prazer e que as pessoas gostam disso e buscam prazer. No entanto, isso faz pouco para explicar por que a dita atividade cerebral pode, às vezes, causar dependência, mas normalmente não o faz. A vasta maioria das pessoas não são viciadas em comida ou drogas – e não está clara a diferença em relação à minoria que são.
 
Então, prazer por si só não é dependência – e não apenas ansiar e ter prazer são suficientes para definir dependência. A definição mais aceita descreve dependência doentia como um comportamento compulsivo relacionado a uma substância ou atividade que as pessoas continuam a consumir e fazer apesar das consequências negativas. Essa é a essência da definição usada pelo manual de diagnóstico da psiquiatria.

É um fenômeno complexo que vai além da mera ativação dos caminhos do prazer. Infelizmente, a maior parte das pesquisas sobre o imaginário de animais e do cérebro nos conta muito pouco sobre isso. Na semana passada, por exemplo, noticiei uma pesquisa sobre “vício da comida”: os pesquisadores descobriram que quando se deu “milk-shake” a mulheres voluntárias, aquelas que tinham mais sintomas de vício alimentar apresentaram maior atividade nas regiões cerebrais relacionadas a prazer e desejo e atividade reduzida em áreas vinculadas a autocontrole em comparação com aquelas que não tinham nenhum sintoma ou tinham poucos sintomas de vício alimentar.

Isso é interessante, mas, de novo, realmente mostra que voluntárias sintomáticas, de forma previsível, relataram ter tido mais prazer e desejo e menos autocontrole.

E é importante notar que nenhuma das mulheres da pesquisa realmente tinha vício alimentar: algumas tinham sintomas, mas nenhuma tinha desordens alimentares plenas. As diferenças cerebrais mostradas na pesquisa, portanto, foram vistas em pessoas perfeitamente normais – muitas das quais, sugere pesquisa anterior, nunca serão viciadas em comida.
 
Nenhuma pesquisa jamais isolou uma simples modificação cerebral que seja sempre vista em viciados e nunca em não viciados. E embora algumas pesquisas tenham encontrado mudanças que podem ajudar a prever as chances de recaída de um viciado, elas não são sempre precisas.

Esse fracasso em definir ou entender a linha borrada entre o normal e o patológico leva a todos os tipos de concepções errôneas sobre vício: por exemplo, pensar que a simples exposição a uma substância ou experiência seja suficiente para gerar o vício.

A maioria de nós aprecia o “milk-shake” ocasional, mas virtualmente nenhum de nós roubaria um banco se o preço dele se tornasse proibitivo. Da mesma forma, mais de 97% das pessoas que tomam analgésicos opióides como Oxycontin, por recomendação médica, e não têm um histórico anterior de vício, não se tornam dependentes, mostram as pesquisas.

E como Virginia Heffernan destacou no New York Times, os universitários de hoje que se definem como “viciados em Internet” não agem de forma muito diferente do que os antigos, os quais se sabia que ocasionalmente deixavam de estudar e ficavam acordados até tarde por causa de um “hobby” ou algum interesse particular.

A pesquisa da dependência está continuamente preenchendo lacunas do quebra-cabeça do comportamento viciante. Mas usar as provas existentes para afirmar que sexo ou comida gera impulsos por meio do “sequestro” de caminhos de prazer do cérebro não conta a história inteira.

Precisamos compreender muito mais sobre como controlamos e escolhemos nosso comportamento de forma ordinária antes de podermos verdadeiramente saber o que leva nossas decisões a se azedarem na questão do vício.

Se não compreendemos como comida e sexo normalmente afetam nossos cérebros e nossas escolhas, como podemos entender o que provoca a dependência doentia de qualquer substância ou experiência? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário